Brasil testa Biodiesel B25 e mira economia de R$60 bi por ano
09/06/2026 - Combustíveis
Setor aposta em selo para consolidar a confiança num combustível que é seguro e pode melhorar a balança comercial no setor energético

Jerônimo Goergen, presidente da Aprobio

Em meio aos ruídos de um debate nacional marcado por desconfianças e embates técnicos, o setor de biocombustíveis do Brasil decidiu virar a página. Mais do que uma aposta econômica, a produção de biodiesel a partir da soja e de outras matrizes renováveis se consolida como uma estratégia de soberania nacional, segurança energética e valorização da cadeia do agronegócio. Em uma entrevista exclusiva, Jerônimo Goergen, presidente da Aprobio (Associação dos Produtores de Biocombustíveis do Brasil), detalhou os contornos dessa nova fase, que promete transformar a matriz de transporte pesado do país.

A discussão sobre o aumento da mistura de biodiesel ao diesel mineral sempre foi marcada por um coro de críticas vindo de setores da indústria automotiva e de transportadores. Queixas sobre borras, entupimento de filtros e riscos à manutenção dos motores alimentaram, por anos, uma narrativa de resistência. Goergen admite que o setor de biocombustíveis tem sua parcela de responsabilidade nesse histórico conturbado.

Eu acho que o setor, pela origem que teve, sempre teve uma vantagem, já que a lei determinava a mistura. Isso gerou um conforto e alguns descuidos na comunicação e no próprio controle de qualidade”, reconhece o presidente da Aprobio. No entanto, ele aponta um fator crucial que raramente entra em pauta, que é a contaminação cruzada. “O combustível no Brasil, de forma geral, é de baixa qualidade. Existe muita falsificação. E a maior parte do problema acaba sobrando para o biodiesel.”

A resposta a esse cenário, segundo Goergen, é uma ofensiva inédita. “Nós resolvemos assumir isso. Fomos cobrados por uma necessidade de testagem e já assinamos a portaria. Está para começar o maior programa de testagem de biodiesel do mundo.” O investimento do próprio setor beira os R$ 10 milhões, um movimento que o executivo classifica como “virar a chave”.

Dados técnicos recentes da ANP (Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis), por meio do programa PMQBio (Programa de Monitoramento da Qualidade do Biodiesel), indicam que o problema não está na origem da matéria-prima, um temor recorrente no setor. “Eu perguntei à diretora da ANP, Symone Araújo, se o problema era a matéria-prima. Ela foi tranquila e disse que não há problema com o sebo ou com a soja. O problema é a armazenagem, o transporte e os procedimentos”, revela Goergen.

Balança comercial do Biodiesel
Aprobio defende que a indústria nacional de Biodiesel já possui condições de suprir a importação de diesel com o aumento da mistura para 22% | Imagem meramente ilustrativa gerada por IA

Os números corroboram essa mudança de diagnóstico. Entre as medições de novembro (2025) e maio (2026), as falhas de qualidade identificadas caíram pela metade. A expectativa do setor é que, com a implementação do novo cronograma de testes para o B25 (25% de biodiesel na mistura), o Brasil alcance um padrão de excelência que silencie, de vez, as críticas técnicas. “O novo B16, B17, B20 e B25 já virão testados. Isso vai mudar o debate”, afirma.

Em um movimento inédito de autorregulação, a Aprobio e a Ubrabio (União Brasileira do Biodiesel e Bioquerosene) decidiram enterrar a lógica dos selos próprios. Até então, as associações concediam certificações voluntárias de qualidade. Agora, a ideia é criar um selo único, validado por um comitê independente formado pelo ministério e por representantes dos consumidores (incluindo transportadores e revendedores).

Nós mesmos propusemos essa mudança. O selo vai permitir que os consumidores, através de um comitê, avaliem se as empresas estão cumprindo as regras da ANP. O biodiesel ficará protegido, e o restante da cadeia será obrigado a cuidar do combustível comum”, explica Goergen. Dessa forma, indústria do setor se mostra disposta a ser fiscalizada e a dialogar, abandonando a postura reativa que marcou o passado.

A geopolítica do óleo vegetal

Enquanto a Europa e os Estados Unidos avançam em acordos bilaterais para a soja, como o recente entendimento entre China e EUA, o Brasil corre o risco de ser reduzido a mero exportador de matéria-prima bruta. Para Goergen, a agregação de valor por meio do biodiesel é uma questão de sobrevivência econômica. “O espaço que a nossa soja perde pode ser cada vez maior. Ao invés de mandar o grão embora, temos que transformá-lo em energia e proteína”, defende.

O Brasil atualmente gasta cerca de R$ 60 bilhões por ano para importar diesel. E, ironicamente, a indústria nacional de biodiesel tem capacidade ociosa para produzir o equivalente a 22% de todo o diesel consumido, exatamente o percentual que hoje é importado. “O biodiesel é mais de R$ 1 mais barato que o diesel fóssil. Além de gastarmos R$ 60 bilhões, deixamos de agregar valor na indústria nacional”, calcula Goergen.

B100

Quando questionado sobre a viabilidade técnica do uso de biodiesel puro (B100) em caminhões e ônibus, Goergen adota um pragmatismo científico. Em vez de prometer o B100 imediato, ele aposta na aceleração dos testes para o B25, previstos para serem concluídos até março do próximo ano. “Nós não estamos testando o B16, depois o B17. Nós estamos testando diretamente o B25, alinhados com a indústria de motores e a CNT”, avisa.

Essa antecipação, se bem-sucedida, encurtará o cronograma da nova Lei do Combustível do Futuro. “Com o B25 testado, abrimos uma nova discussão. Não tenho dúvida de que teremos a liberação para quem quiser usar 100% biodiesel, com segurança e qualidade.”

O dirigente critica abertamente o que chama de “falta de coerência” de órgãos como o Conama, que pretende obrigar tratores e colheitadeiras a adotarem motores padrão Euro, mais caros e dependentes de diesel fóssil. “Por que querer obrigar o cliente do trator a comprar um motor 30% mais caro, usando arla e diesel fóssil, justo quando teremos o B25 testado? Não faz sentido. Nós queremos biodiesel no campo!”, protesta.

O custo da hesitação

O cenário geopolítico, atualmente marcado pelos conflitos no Leste Europeu e no Oriente Médio, além da instabilidade na Venezuela, escancarou a vulnerabilidade dos países dependentes de petróleo. Para Goergen, o Brasil tem uma janela de oportunidade única, mas precisa parar de ser “seu próprio inimigo”.

A guerra nos deu uma janela para o mundo ver que temos o biodiesel. Não adianta ter uma lei que garanta a mistura se o consumidor não reconhece isso. Precisamos consolidar o setor agora”, defende.

Ele rebate o lobby do combustível fóssil, que ainda busca espaço no Congresso, e classifica como “falta de inteligência estratégica” a hesitação brasileira em ocupar esse nicho. “Não se trata de liberalismo ou antiliberalismo. Isso é estratégia nacional. Vamos usar nosso mercado interno para consolidar um setor que gera emprego, renda e segurança energética”, contextualiza Goergen.

O teste de fogo

Até o fim de 2026, o Brasil pretende ter não apenas um combustível mais limpo e barato, mas uma nova arquitetura de certificação e confiança entre produtores, montadoras e transportadores. O programa de testes do B25 será o maior laboratório vivo do mundo para biocombustíveis em motores de ciclo diesel.

Espero que o Brasil use este ano para parar de brigar consigo mesmo. Que em 2027 tenhamos o biodiesel trazendo energia, agregando valor ao agricultor e ganhos econômicos para o país”, finaliza Goergen.