
A história do transporte rodoviário moderno completa, em maio de 2026, 130 anos de um marco que redefiniu a economia e a logística mundial. No dia 4 de maio, a Daimler Truck AG deu início à campanha global “130 Years of Forward”, celebrando a invenção que, em 1896, na região alemã de Stuttgart (Alemanha), mudou para sempre a forma como o mundo se move.
Por sua vez, a Mercedes-Benz do Brasil, uma de suas subsidiárias mais estratégicas, também se prepara para uma festa própria, já que em setembro de 2026, a planta de São Bernardo do Campo, no ABC paulista, completará 70 anos de operação, consolidando não apenas a interiorização da indústria pesada brasileira, mas uma trajetória de engenharia que conecta os primórdios da motorização aos mais rigorosos desafios contemporâneos de descarbonização.
A visão de Gottlieb Daimler

O Daimler Motor-Lastwagen recebia o motor bicilíndrico Phoenix de 1,06 litros e 4 cv de potência, sendo instalado na traseira | Frota&Cia
Tudo começou com Gottlieb Daimler, um engenheiro visionário nascido em Schorndorf (Alemanha), que, após uma formação técnica e experiências na França e no Reino Unido, dedicou sua vida a transformar a tração animal em força mecânica. Sua maior contribuição para o setor de transportes ocorreu em 1896, quando converteu uma carroça de tração animal em um veículo auto propelido. Aquele primeiro caminhão motorizado, construído sob medida para um cliente em Londres, ainda trazia a simplicidade das charretes, mas já carregava em seu motor e eixos a semente do que viria a ser a base de toda a infraestrutura logística do século XX. Curiosamente, o primeiro ônibus motorizado do mundo antecedeu o caminhão em um ano, considerando que em 1895, Carl Benz já havia projetado o Landauer, que percorria cerca de 15 quilômetros ligando a cidade de Siegen aos vilarejos de Netphen e Deuz, na Alemanha.
A invenção de Daimler não foi apenas técnica, mas conceitual. Ela criou um novo setor produtivo. Ao vender o primeiro caminhão para o mercado londrino, Daimler já demonstrava a vocação internacional do negócio, algo que moldaria as futuras operações globais da empresa. Ao longo dos primeiros anos do século XX, a Daimler-Motoren-Gesellschaft (DMG) e a Benz & Cie (fundada por Carl Benz em 1883) evoluíram em paralelo, até se fundirem em 1926, dando origem à Daimler‑Benz AG e ao selo de qualidade que batizaria os caminhões e ônibus mais robustos do planeta: Mercedes‑Benz.
A chegada ao Brasil
A chegada da Mercedes-Benz ao Brasil ocorreu em um momento de forte industrialização nacional, durante o governo de Juscelino Kubitschek. Em 28 de setembro de 1956, o presidente participou da inauguração da primeira fábrica da montadora alemã no país, localizada em São Bernardo do Campo, nos arredores de São Paulo. Na ocasião, também saiu da linha de montagem o primeiro caminhão fabricado no Brasil pelo grupo, que foi o lendário modelo L 312, apelidado de “Torpedo” devido ao formato característico do capô e à cabine avançada.
O L 312 representou um salto tecnológico para a frota nacional. Equipado com motor diesel de seis cilindros em linha, modelo OM‑312, com 4,6 litros de cilindrada e potência de 112 cavalos, ele foi o primeiro caminhão médio nacional a utilizar esse tipo de propulsão, um diferencial em relação aos modelos a gasolina ou álcool que ainda dominavam as estradas brasileiras. Além dos caminhões, no mesmo ano foi lançado o chassi de ônibus LP 312, estabelecendo a base para a produção de carrocerias por diversos fabricantes independentes e iniciando a capilaridade do transporte coletivo rodoviário no país.
Ao longo das décadas seguintes, a Mercedes-Benz do Brasil se consolidou como uma das mais importantes subsidiárias da Daimler Truck fora da Alemanha. A unidade de São Bernardo do Campo cresceu para se tornar a maior fábrica de caminhões da América Latina, com impressionantes 2,6 milhões de metros quadrados de área construída, abrigando não apenas as linhas de montagem, mas também um dos mais completos parques industriais do setor.
Um marco fundamental na história da operação foi a inauguração, em 29 de agosto de 1991, do Centro de Desenvolvimento Tecnológico (CDT) dentro do complexo fabril. Com um investimento inicial de US$ 40 milhões à época, aquela foi a primeira instalação desse porte dedicada a caminhões e ônibus construída pela empresa fora da Europa. A unidade paulista passou a ser o principal polo de desenvolvimento tecnológico da marca nas Américas, responsável pela adaptação de motores e cabines para as condições severas de uso nos trópicos e pela criação de modelos inteiramente projetados para atender à realidade do continente.
Essa vocação industrial e de inovação se refletiu na capacidade exportadora da subsidiária. Desde a década de 1970, a Mercedes-Benz do Brasil exporta veículos e componentes em regime CKD (Completely Knocked Down), um sistema no qual os kits montados em outros países. Em janeiro de 2022, a empresa alcançou a marca histórica de 150 mil caminhões e ônibus exportados nessa modalidade, abastecendo mercados na América Latina, África e Ásia.
Em 65 anos de produção, contabilizados em 2021, a Mercedes-Benz vendeu mais de 1,8 milhão de unidades de caminhões e ônibus no país, consolidando uma tradição de robustez e confiabilidade nas estradas, nas cidades e nas fronteiras agrícolas. No segmento de transportes rodoviários de passageiros, a liderança é ainda mais expressiva, já que aproximadamente 18 mil ônibus foram comercializados apenas na última década, mantendo a marca como a maior fornecedora das frotas urbanas e rodoviárias brasileiras.
Foco na descarbonização

Linha do tempo da Daimler Truck | Imagem: Divulgação
Ao mesmo tempo em que revisita sua rica herança, a Daimler Truck projeta seus próximos 130 anos com um foco estratégico na transição energética e na digitalização. Conforme declarou Karin Rådström, presidente e CEO da fabricante, ao apresentar a campanha “130 Years of Forward”, a honra de carregar o legado de Gottlieb Daimler vem acompanhada da responsabilidade de moldar o futuro, passando pela decarbonização do transporte, digitalização dos veículos e serviços para agregar valor aos clientes.
Um dos indicadores mais tangíveis dessa virada é a crescente participação dos caminhões elétricos no portfólio da empresa. Em 2025, a Daimler Truck alcançou 35% de participação de mercado no segmento de caminhões médios e pesados elétricos a bateria na Europa, demonstrando que a eletrificação, antes restrita a aplicações urbanas, avança sobre o transporte rodoviário de carga de longa distância. Representando essa nova geração está o Mercedes‑Benz eActros 600, um veículo projetado para descarbonizar o coração da logística do continente, entregando performance e autonomia compatíveis com os regimes de trabalho severos exigidos pelas frotas modernas.
No Brasil, a transição energética também avança em ritmo acelerado. A fábrica de São Bernardo do Campo desempenha papel estratégico como centro de excelência global para o desenvolvimento de soluções sustentáveis. Recentemente, a unidade passou a utilizar caminhões elétricos do modelo eActros 300 na logística interna, reafirmando o compromisso da empresa com a mobilidade de baixo carbono no país. Em outubro de 2025, a Mercedes-Benz do Brasil já havia superado a marca de 400 ônibus elétricos comercializados, demonstrando a penetração da tecnologia elétrica no transporte coletivo brasileiro.
Linha do tempo
- 1895: Protótipo do primeiro ônibus motorizado do mundo, o Landauer, desenvolvido por Carl Benz, entra em operação na rota Siegen-Netphen-Deuz, na Alemanha.
- 1896: Gottlieb Daimler constrói o primeiro caminhão motorizado da história, baseado em uma carroça de tração animal, dando origem à indústria global de veículos comerciais.
- 1926: Fusão das empresas Daimler-Motoren-Gesellschaft (DMG) e Benz & Cie., criando a Daimler-Benz AG, que adota a marca Mercedes-Benz para seus veículos.
- 1956 (28 de setembro): Inauguração da primeira fábrica da Mercedes-Benz no Brasil, em São Bernardo do Campo (SP), na presença do presidente Juscelino Kubitschek.
- 1956 (28 de setembro): Lançamento do caminhão L 312 (“Torpedo”), primeiro veículo comercial produzido no Brasil pela Mercedes-Benz, equipado com motor diesel de 112 cavalos.
- 1956: Lançamento do chassi de ônibus LP 312, primeiro do Brasil para aplicação rodoviária e urbana.
- 1970: Início do programa de exportação de kits CKD (Completely Knocked Down) da Mercedes-Benz do Brasil para mercados emergentes.
- 1979: Inauguração da fábrica de Campinas (SP) para produção de ônibus completos urbanos e rodoviários.
- 1991 (29 de agosto): Inauguração do Centro de Desenvolvimento Tecnológico (CDT) na fábrica de São Bernardo do Campo, primeiro da empresa fora da Europa, com investimento de US$ 40 milhões na época.
- 2021: Criação da Daimler Truck AG como empresa independente, listada na bolsa de valores, separada do negócio de automóveis de passeio do Grupo Mercedes-Benz.
- 2022 (janeiro): A Mercedes-Benz do Brasil alcança a marca de 150 mil caminhões e ônibus exportados em regime CKD desde a década de 1970.
- 2025: Daimler Truck alcança 35% de participação de mercado no segmento de caminhões médios e pesados elétricos a bateria na Europa.
- 2025 (outubro): Mercedes-Benz do Brasil supera 400 ônibus elétricos comercializados, consolidando liderança na eletromobilidade no transporte coletivo do país.
- 2026 (maio): Lançamento da campanha global “130 Years of Forward” pela Daimler Truck, celebrando o aniversário de 130 anos da invenção do primeiro caminhão por Gottlieb Daimler.
- 2026 (setembro): Mercedes-Benz do Brasil completa 70 anos de operação ininterrupta em sua fábrica de São Bernardo do Campo.
- 2026: Fábrica de São Bernardo do Campo utiliza caminhões elétricos eActros 300 em sua logística interna, reforçando compromisso com a sustentabilidade.
