
O Estado de São Paulo registrou uma redução de 11,43% nas ocorrências de roubo e furto de veículos em 2025, na comparação com o ano anterior, segundo dados recém-divulgados pelo Boletim Tracker Fecap. Foram 88.544 boletins de ocorrência envolvendo todos os segmentos, contra 99.968 registrados em 2024. A queda foi mais acentuada na modalidade de roubo, que envolve violência ou grave ameaça, contemplando 20,94% de redução, passando de 20.860 para 16.489 casos. Já os furtos, que representam a maioria dos desaparecimentos de veículos, caíram 8,92%, de 79.108 para 72.055.
Apesar do recuo generalizado, um segmento específico acende um alerta no setor de logística e segurança: os utilitários. Enquanto a média de queda no total de ocorrências foi de 11,43%, os utilitários apresentaram uma redução de apenas 2,9%, com destaque negativo para o furto, que registrou um leve aumento de 0,22%, passando de 462 para 463 casos. Os roubos de utilitários caíram 12,2%, um desempenho menos expressivo do que o registrado por automóveis (-29,4%) ou camionetas (-26,8%), o que sugere uma mudança no perfil da ação criminosa.
Segundo Vitor Corrêa, gerente de Comando e Monitoramento do Grupo Tracker, os números indicam uma especialização dos criminosos. “Enquanto os crimes de oportunidade e os roubos mais violentos diminuem, uma modalidade criminosa mais técnica e direcionada ganha força. É um fenômeno diretamente ligado à transformação econômica e logística das áreas urbanas. O crescimento exponencial do e-commerce e dos serviços de entrega rápida aumentou drasticamente a frota de veículos utilitários, como furgões, vans e VUCs, que circulam com mercadorias e se tornaram alvos mais atraentes e, em muitos casos, mais vulneráveis à ação dos bandidos”, analisa.
TRC
No recorte específico dos veículos pesados, utilizados no transporte de cargas, o cenário é de queda expressiva, mas com nuances que merecem atenção de gestores de frota e motoristas. Os caminhões tiveram uma redução de 15,6% no total de ocorrências, passando de 1.112 para 939 casos. A queda foi puxada tanto pelos furtos (-14,2%) quanto pelos roubos (-16,6%), indicando uma retração generalizada dos delitos que envolvem esses veículos.
Ainda mais expressiva foi a queda nos índices de caminhões tratores, unidades robustas usadas no tracionamento de semirreboques. O segmento registrou uma redução de 19,6% no total de ocorrências, com quedas de 20,7% nos furtos e de 19,5% nos roubos. Em números absolutos, os casos envolvendo caminhões tratores caíram de 729 em 2024 para 586 no ano passado.
Os semirreboques, por sua vez, apresentaram a maior queda proporcional entre todas as categorias de veículos listadas no levantamento: 21,5% de redução no total de ocorrências. Os roubos de semirreboques caíram 24,3% (de 445 para 337 casos) e os furtos recuaram 6,25% (de 80 para 75). A redução significativa nos roubos desses implementos rodoviários pode estar associada a estratégias de rastreamento e monitoramento mais eficazes, além de uma possível mudança no foco dos criminosos para cargas de maior valor agregado ou mais fáceis de serem escoadas em centros urbanos, como as transportadas justamente pelos utilitários.
Dados gerais
Erivaldo Vieira, pesquisador da Fundação Escola de Comércio Álvares Penteado (FECAP) responsável pelo estudo, explica que a dinâmica criminal ainda favorece o furto em detrimento do roubo. “De cada 10 veículos que desaparecem, oito são furtados e dois roubados, em média. Isso porque o furto é um delito com pena mais branda e não exige tanto preparo dos criminosos. É um crime silencioso, que muitas vezes abastece redes de desmanche e receptação de peças”, avalia.
Automóveis e motocicletas continuam sendo os principais alvos dos criminosos em números absolutos, representando 88,7% do total de ocorrências em 2025. Os automóveis somaram 45.857 casos (queda de 11,2%) e as motocicletas, 32.633 (queda de 11,5%). Apesar do peso desses números, o desempenho dos utilitários chama a atenção justamente por contrariar a curva descendente, indicando que a criminalidade pode estar se adaptando às novas dinâmicas de consumo e circulação de mercadorias.
O pesquisador da FECAP destaca ainda que, embora os índices gerais estejam em queda, o crime se mostra resiliente e concentrado. As dez cidades com mais ocorrências agora respondem por 69,01% de todos os casos do estado, um leve aumento em relação ao ano anterior. “Isso demonstra que, embora o crime esteja recuando, ele permanece fortemente enraizado nos grandes centros logísticos e demográficos, um fenômeno que chamamos de hiperconcentração urbana”, afirma Vieira.
Cidades como Campinas (+2,1%), Sorocaba (+5,4%) e Diadema (+2,5%) apresentaram aumento no total de ocorrências, impulsionadas principalmente pelo crescimento expressivo dos furtos. Diadema, por exemplo, viu os furtos saltarem 14,55%. Na Região Metropolitana de São Paulo, Mauá teve a maior queda proporcional entre os municípios analisados, com redução de 20,67% no total de casos, seguida por Santo André (-16,3%) e Guarulhos (-11,4%).
Bairros paulistanos
Na capital paulista, a análise por bairros revela uma reorganização da atividade criminosa. Santo Amaro, na Zona Sul, tornou-se o bairro com o maior número de ocorrências em 2025, com um aumento de 8,29% no total, puxado por uma alta de 14,72% nos furtos. O dado é particularmente emblemático porque o bairro registrou uma queda expressiva nos roubos (-34,95%), sugerindo uma migração ou especialização local para o furto, crime de menor risco e maior volume, ideal para abastecer o mercado ilegal de peças.
Enquanto isso, bairros da periferia da Zona Sul, como Grajaú e Campo Limpo, e da Zona Leste, como São Mateus, se destacam pelos altos números absolutos de roubos, modalidade que envolve confronto violento. Nesses locais, o roubo representa uma parcela muito maior do total de crimes em comparação com bairros centrais, indicando que o risco de violência para a subtração do veículo é substancialmente maior nessas regiões.
A Zona Leste, por sua vez, se consolida como o epicentro dos furtos. Bairros como Vila Matilde e São Mateus registraram leve aumento nos furtos, resistindo à tendência de queda observada em outras áreas. A resiliência do furto em pontos específicos da região é um forte indicativo da presença de uma infraestrutura criminal consolidada, provavelmente ligada a desmanches e receptadores.
