
Por muito tempo, a automação industrial e logística foi tratada como uma miragem tecnológica no Brasil, como sendo um conceito fascinante, mas restrito a feiras internacionais, vídeos de modernas fábricas mundo afora ou relatórios de tendências de longo prazo, distante da realidade operacional e financeira da maioria das empresas locais. Esse cenário, no entanto, está em rápida transformação, impulsionado por um motor inesperado: a Reforma Tributária.
A avaliação é de Thiago Holanda, gerente da chinesa Libiao Robotics para a América Latina e especialista em automação e robótica. Para ele, o novo modelo de tributação baseado na lógica do crédito financeiro altera radicalmente a equação econômica dos investimentos em tecnologia. “Robôs eram sinônimo de alto investimento, longo prazo de retorno e decisões difíceis de justificar. Essa equação mudou”, afirma.
Pela nova sistemática, o tributo incidente nas etapas anteriores da cadeia produtiva gera crédito financeiro, compensável com débitos futuros. Isso reduz o custo efetivo da aquisição de sistemas robóticos e encurta o período de retorno do investimento (payback), transformando a automação em uma decisão estratégica mais acessível e palatável para o balanço das empresas.
O paradoxo do crescimento
![]() Thiago Holanda, gerente da Libiao Robotics | Foto: Divulgação |
A mudança no ambiente fiscal encontra um cenário de consumo aquecido. Dados da Associação Brasileira de Inteligência Artificial e E-Commerce (ABIACom) indicam que o comércio eletrônico nacional pode ter concluído o ano de 2025 com faturamento superior a R$ 258 bilhões, impulsionado pela entrada de dois milhões de novos compradores.
O crescimento de dois dígitos no setor, no entanto, não tem se traduzido em ganhos proporcionais de eficiência. “Mais consumo não significa mais eficiência. Os custos logísticos aumentam e pressionam as margens”, explica Holanda. Para ele, há um paradoxo estrutural, pois enquanto as empresas vendem mais, a armazenagem se torna mais cara e escassa em grandes centros, os estoques crescem e o “last mile” (último km da entrega) pesa cada vez mais no custo unitário.
É nesse gargalo que a robótica entra como ferramenta de descompressão. Segundo Holanda, sistemas autônomos permitem otimizar o uso do espaço vertical dos galpões, reduzir o consumo de energia e mitigar erros na separação de pedidos, conferindo previsibilidade a um setor sujeito à sazonalidade e à pressão regulatória. “A automação com robótica na logística permite aumentar a produtividade sem ampliar custos fixos na mesma proporção”, resume.
Se o acesso à tecnologia se tornou mais viável, a pergunta que ronda as salas de diretorias mudou, de acordo com Holanda. “A pergunta que muitos executivos continuam adiando responder não é se a automação é necessária. Isso já está claro. A pergunta real é: quanto custa não decidir agora?”
Os números do varejo online ajudam a dimensionar esse custo de oportunidade. Pesquisas setoriais indicam que a taxa de abandono de carrinho no Brasil oscila entre 70% e 80%, superando a média global. Embora o valor do frete lidere as queixas dos consumidores, o prazo de entrega é um fator decisivo para a desistência e um levantamento da plataforma Yampi aponta que 36,5% dos consumidores desistem da compra no checkout devido ao tempo de espera, enquanto 29% são influenciados pela expectativa de entregas rápidas, como no dia seguinte.
Para Holanda, a combinação de consumo crescente, custos logísticos elevados e um novo regime tributário que favorece o investimento produtivo desenha um novo campo de competição. “A vantagem competitiva estará em quem opera melhor a logística. Ter robôs em sua operação está cada vez mais acessível e, desta vez, ele chega com incentivo tributário, viabilidade econômica e um papel central na estratégia das empresas que querem crescer sem perder margem”, conclui.

